sábado, 23 de janeiro de 2010

VIP party




Esta é a (fabulosa) capa da mais recente aventura musical de Peter Gabriel, e o plano das festas não poderia ser mais simples e delicioso: uma simples troca por troca. Gabriel faz "covers" de vários artistas convidados, e em contrapartida, esses mesmos artistas farão "covers" de músicas escritas pelo compositor britânico. A coisa até poderia não ser nada de especial, não fossem os nomes em questão artistas como David Bowie, Elbow, Radiohead, Arcade Fire, Regina Spektor, Bon Iver, Talking Heads, Lou Reed e Neil Young (como se o nome de Peter Gabriel também não fosse, por si só, suficiente).

Um elenco de luxo como este até parece bom de mais para ser verdade, mas a primeira parte do projecto já está quase cá fora. Scratch My Back contém as 12 versões de Peter Gabriel, enquanto que I'll Scratch Yours sairá mais tarde, desta feita com as canções de Gabriel interpretadas pelos mesmos artistas.
Mais um aperitivo para o grande banquete que promete ser este ano de 2010.

1. Heroes - David Bowie
2. The Boy In The Bubble - Paul Simon
3. Mirrorball - Elbow
4. Flume - Bon Iver
5. Listening Wind - Talking Heads
6. The Power Of The Heart - Lou Reed
7. My Body Is A Cage - Arcade Fire
8. The Book Of Love - The Magnetic Fields
9. I Think It's Going To Rain Today - Randy Newman
10. Après Moi - Regina Spektor
11. Philadelphia - Neil Young
12. Street Spirit (Fade Out) - Radiohead

sábado, 16 de janeiro de 2010

saudosos anos 2000 - cogumelos e tudo mais




Poucas bandas se poderão orgulhar de poder afirmar que quebraram a barreira do díficil segundo álbum. Entre elas encontra-se, sem qualquer sombra de dúvida, o trio britânico de Teignmouth, Devon, Reino Unido. Depois de um primeiro álbum (Showbiz) em que as potencialidades foram devidamente reconhecidas mas em que a maldita comparação aos já na altura gigantes Radiohead (chaga que persiste incompreensivelmente até aos dias de hoje, diga-se de passagem) ameaçava ofuscar uma carreira brilhante, os Muse resolveram rebentar com os padrões da cena rock da altura. Independentemente dos caminhos que a banda viria a tomar no futuro, Origin Of Symmetry (2001) caiu que nem uma bomba no circuito do rock alternativo. Já poucos acreditavam no renascimento do rock, e provavelmente este álbum em nada contribuiu para o fazer, mas uma verdade é certa: os Muse criaram uma obra prima como poucas existem e como muitos já julgavam impossível de acontecer.
O primeiro contacto que tive com a música dos Muse foi com Absolution, que saiu em 2003. Aí apercebi-me de que estava na presença de uma banda que me atingia no âmago daquilo que eu pretendia da música. Com Origin Of Symmetry, tive a certeza de que me encontrava perante a minha banda preferida.
Lembro-me como se fosse ontem da primeira vez que coloquei este CD na minha aparelhagem para o ouvir. Poucos álbuns existem em que a sequência inicial de músicas nos deixa absolutamente agarrados à cadeira. São 7 faixas de cortar a respiração em que a voz esquizofrénica de Matthew Bellamy nos conduz numa viagem recheada de riffs rasgados, ambientes espaciais e futuristas, harpejos e interlúdios ao piano (que viriam a tornar-se imagem de marca do grupo), melodias gritantes, apaixonadas, intensas, agressivas, directas, exarcebadas, envolventes, contagiantes, entusiasmantes e, acima de tudo, inovadoras. Nelas encontramos falsetes operáticos, harmónicos dissonantes, baixos distorcidos e trabalhados, secções rítmicas inteligentes, camadas e camadas de pormenores por descobrir. New Born, Bliss, Space Dementia, Hyper Music, Plug In Baby, Citizen Erased e Microcuts, todas elas podem passar por hinos, homenagens perspicazes aos compositores clássicos, transpostas para uma era à altura da ambição do trio britânico. À oitava música (Screenager), uma pausa, ossos humanos e unhas de lama (sim, o bicho que existe nos Andes) marcam o ritmo compassado, num toque de jazz excêntrico do séc. XXI para imediatamente depois sermos conduzidos de volta a um tango epiléptico, onde o baixo de Chris Wolstenholme se destaca (Darkshines). Feeling Good é a homenagem brilhante a Nina Simone, numa das melhores covers de todos os tempos e o álbum acaba numa sonata "megalómana" em órgão de igreja em que Bellamy se despe e despeja incertezas sobre as certezas da vida, e onde o delírio lírico presente em todo o álbum culmina num êxtase alucinogénico.
Dizem os rumores que muitas das faixas de Origin Of Symmetry foram compostas e gravadas sob o efeito de cogumelos "mágicos", facto que poderá explicar alguns excertos das letras, assim como a excentricidade dos riffs, ritmos, efeitos, linhas de baixo e melodias da voz . Não obstante tudo isso (ou principalmente por causa disso), a pequena revolução liderada pelos Muse deixou o seu marco na história. Origin Of Symmetry poderá não estar incluído na maior parte das listas de melhores álbuns desta primeira década dos anos 2000. Mas posso afirmar com toda a certeza de que é o álbum da minha vida, pelo menos até ver. Ou até ouvir outra coisa que me desperte para ser outra pessoa diferente daquela que sou hoje. Chega para vos convencer?


1. New Born
2. Bliss
3. Space Dementia
4. Hyper Music
5. Plug In Baby
6. Citizen Erased
7. Microcuts
8. Screenager
9. Darkshines
10. Feeling Good
11. Megalomania

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

os (outros) 10 momentos mais marcantes de 2009, que na verdade são só 9 - João Gonçalves


Sou pouco adepto de tops, pelo menos no que diz respeito àqueles que implicam um ranking numérico. Para além de considerar extremamente redutor e arriscado reunir a melhor música que se fez num ano inteiro, numa lista hierarquizada de 10 ou 15 ou 20 lugares, estas brincadeiras, inevitavelmente, misturam estilos e perspectivas por vezes tão díspares que originam o mais chocado protesto ou estupefacção, interrogações e censuras ao critério escolhido, etc, etc. Resumindo: tenho pouca paciência para essas merdas.
Como se não fosse suficiente, este foi um ano que me deixou algo desiludido em termos de matéria musical. Não me interpretem mal, fez-se muita e boa música em 2009. Mas não houve a energia contagiante de alguns anos anteriores, em torno da maioria dos álbuns que saíram, embora alguns deles sejam manifestamente bons. Parece-me a mim, que faltou a chama de um nome ou dois verdadeiramente grandes (vem-me à cabeça Radiohead, Arcade Fire, LCD Soundsystem...), e que o rebuliço que houve com "Merriweather Post Pavillion" (saiu logo em Janeiro, lembram-se?) matou logo à nascença qual seria o mais consagrado do ano. Paradoxalmente, é isso que torna 2009 tão caracteristicamente interessante.

É, pois, por isso que eu vos apresento não uma lista daqueles que eu considero serem os melhores de 2009, mas sim uma lista que complementa aquela que o meu camarada Simão apresentou aqui há dias. Porque partilho com ele alguns dos nomes que ele considerou serem os mais marcantes deste ano, e porque fiquei monumentalmente chocado com alguns outros que ele deixou de fora, aqui ficam estes álbuns, para que fique registado que eles foram ouvidos e devidamente apreciados aqui por estes lados. Deixemo-nos de conversa:



Kasabian - West Ryder Pauper Lunatic Asylum

Os Kasabian fazem parte daquele grupo restrito de bandas que me fazem pensar, sempre que tenho oportunidade de escutar um álbum deles: "mas porque raio é que eu não oiço estes gajos mais vezes??" WRPLA, para além de ter um nome comprido e estranho, é uma das grandes marcas do ano. A batida e o ritmo estão lá, mas desta vez os Kasabian apostam na imprevisibilidade. Esquecem os refrões fáceis e arriscam mais. Mais ousados, mais interessantes, melhores que nunca. Que se façam mais álbuns assim.


Phoenix - Wolfgang Amadeus Phoenix

Para além do título claramente bem humorado, a música do 4º álbum dos Phoenix é genuinamente boa. Como gosto de fazer comparações híbridas, diria que estes moços são uma mistura de The Shins com Vampire Weekend, juntando uma pitada de sintetizadores e uma contagiante dose de boa disposição. Uma das mais agradáveis surpresas do ano, para ouvir e ouvir várias vezes.


Muse - The Resistance

O meu momento tendencioso do dia. Num ano de clara tendência indie/minimalista, a excentricidade de The Resistance é uma lufada de ar fresco num ano que ameaçava tornar-se soturno demais. Ame-se ou odeie-se, ninguém lhe fica indiferente, e tem lá dentro algumas das melhores músicas feitas pelos Muse.


The xx - xx

Um nome que me espantou ter sido descartado pelo Simão, a mim não passa indiferente. A par de Merriweather Post Pavillion, dos Animal Colective, o disco de estreia dos The xx é o álbum mais badalado do ano. Numa coisa concordamos: xx não é certamente uma obra grandiosa. Mas aí reside o segredo do seu sucesso. Músicas simples, mas construídas com várias camadas, vários pormenores. Vozes suaves, sussurradas e despretenciosas, conduzem melodias reconfortantes, descontraídas e surpreendentemente "catchy". Um óptimo disco para nos deixar-mos levar, e que se revela a si mesmo à medida que as audições se multiplicam. Vale mesmo a pena.


The Big Pink - A Brief History Of Love

Se tivesse que ser obrigado a fazer um top 10, este disco de estreia teria presença mais que assegurada. Guitarras estridentes, intensas e distorcidas, paisagens e ritmos electrónicos, melodias cativantes e um dos melhores singles do ano (Dominos). O que há para não gostar? Uma das descobertas mais interessantes de 2009.


Yeah Yeah Yeahs - It's Blitz

E eis que os Yeah Yeah Yeahs trocaram as guitarras pelos sintetizadores. "Blasfémia", gritarão alguns, "é moda" gritarão outros. A verdade é que a energia presente no álbum é revitalizante. Karen O, uma das vozes femininas mais cativantes da actualidade, lidera o assalto às pistas de dança, e a chamada à electrónica é aposta ganha em It's Blitz. Não faltam momentos mais saudosos e melancólicos, mas este disco é essencialmente um disco de celebração. Lá dentro, Zero e Heads Will Roll são duas das faixas que marcam 2009. Well done!


Patrick Wolf - The Bachelor

Ao que parece anda (injustamente) arredado das listas dos melhores deste ano. Mas Wolf não ficou esquecido por estes lados. O britânico decidiu deixar o circo para trás e pôs mãos à obra para criar um álbum intenso, directo, agressivo, recheado de orquestrações e coros. Pop e electrónica de mãos dadas, como só ele sabe fazer. O David Bowie do século XXI, não me canso de o repetir.


Them Crooked Vultures - Them Crooked Vultures

O super-grupo formado por Josh Homme, Dave Grohl e Jonh Paul Jones foi das últimas coisas a que me propus ouvir este ano, e as pequenas amostras que circulavam na internet eram pouco apetecíveis para eu criar grandes expectativas. Obviamente, enganei-me redondamente. Rock puro e duro, com um toque de criatividade rítmica e riffs calculados. Está lá a típica guitarra abafada de Queens Of The Stone Age, os breaks certeiros da bateria de Grohl, o groove experiente e sereno dos Led Zepellin. É rock como já pouco se faz hoje em dia, e eu só gostava de me enganar mais vezes assim.


Arctic Monkeys - Humbug

Um dos frutos da discórdia aqui no When You're Around. Para o Simão é um álbum banal, para mim uma viragem surpreendente. Humbug é diferente e mudou a sonoridade dos Arctic Monkeys. Para melhor? Para mim não há dúvidas que estamos perante um grande álbum, mais escuro, mais implícito, mais difícil de ouvir. Mas eu gosto de obras que me dêem "luta". Vénias a Josh Homme. E vénias aos 4 putos, que não tiveram medo de crescer.

geeks do it better


"Horchata" recebe-nos como se acabássemos de chegar à selva. "Contra", o novo disco dos Vampire Weekend, transporta-nos para pleno Verão quando ainda agora começou 2010. Mas não há dúvida que é uma excelente forma de começar o ano.

O quarteto nova-iorquino não esqueceu o arzinho nerd nem a fórmula segundo a qual elaboram as canções. Mas introduzem novas palmeiras na sua sonoridade. Desta vez, além dos já habituais e deliciosos arranjos orquestrais, há também guitarras ligeiramente distorcidas. Sintetizadores em arpejo, lá nos graves, sim, também os há - começa a ser um recurso inevitável, mas se ajudar a soar melhor, qual o problema?

É incrível como, depois de terem arrecadado o top de melhor álbum de 2008 (aqui para estes lados), os geeks mais divertidos daquela zona de Nova Iorque conseguem produzir mais um álbum recheado de boas canções, dançáveis e cantáveis até mais não. Por vezes, achamos que estão a um passo do caos, no que aos ritmos e às oscilações vocais de Ezra Koenig diz respeito. Só que a seguir vêm os violinos, violas e violoncelos e captam-nos os pontos fracos.

Além de ser um disco mais bem produzido que o homónimo, "Contra" é também um novo patamar na vida dos Vampire Weekend, capazes de caminhar em pavimentos mais escorregadios - talvez o projecto Discovery ("LP", 2009), de Rostam Batmanglij (o teclista) tenha ajudado a criar soluções anti-derrapantes.

Don't worry. Geeks do it better.



quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

saudosos anos 2000 - mixtape



Não é fácil compilar (quase) dez anos de música. Falo por experiência própria. Mas o resultado da mixtape que fiz com o Breites agradou-me. Quis fazê-la a dois por essa mesma razão. Outros olhos, outras mãos e outros gostos ajudaram a eleger várias músicas que, na nossa humilde opinião, serão representativas, na medida do possível, do que se fez no mundo da música desde 2000.




Setlist:

Intro (David Carradine and Uma Thurman - "Truly And Utterly Bill"_Kill Bill II OST)
Arctic Monkeys - Old Yellow Bricks
Digitalism - I Want I Want
Bloc Party - Positive Tension
Fischerspooner - Emerge
Justice - DVNO
LCD Soundsystem - Disco Infiltrator
Hot Chip - Over and Over
Depeche Mode - John The Revelator
New Order - Krafty
The Kills - Last Day Of Magic
Franz Ferdinand - You're the Reason I'm Leaving
The Rakes - Open Book
Patrick Wolf - Tristan
Animal Collective - Peacebone
Radiohead - 15 Step
Gorillaz - Re-Hash
Cut Copy - Going Nowhere
Arcade Fire - Haiti
Interlúdio: Pulp Fiction OST - "Zed's Dead Baby"
The Strokes - On The Other Side

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

os 10 momentos marcantes de 2009 - Simão Martins

Micachu and The Shapes - "Jewellery"



Quando a primeira experiência é bem sucedida, só isso já é de louvar. Mas os Micachu and The Shapes vão mais longe. Ao primeiro tiro, alteram os moldes habituais da pop. Arrancam-lhes os refrões bonitinhos e ritmicamente previsíveis. Dão-nos uma versão crua da pop, por assim dizer, caótica e ao bom estilo da música concreta - sons de aspirador, e outros elementos que caracterizam este estilo tão próprio de Matthew Herbert (produtor do disco). É também a sonoridade mais inovadora, algo apenas possível graças à formação musical de Mica Levi, líder e mentora do projecto.


Animal Collective - "Merriweather Post Pavillion"



Depois de, em 2007, "Strawberry Jam" ter ficado na prateleira (para mais tarde ser bastante apreciado, o que já aconteceu), desta vez os Animal Collective não se puseram com merdas. Um disco construído à base de samples não muito diferentes entre si, com faixas de encher as medidas. Da primeira à última do disco, deparamo-nos com potenciais singles em cada pedaço que encontramos. Seria mais difícil de ouvir, se não conhecessemos já o seu antecessor. Brilhante!


Dirty Projectors - "Bitte Orca"



Não é ele. São elas. As três vozes que juntas compoem harmonias absolutamente incríveis (há vezes em que pensamos tratar-se de um sintetizador) fazem de "Bitte Orca" um disco excepcional. Lembra-nos os ritmos dos Vampire Weekend (cujos vocalista e teclista já fizeram parte dos DP), mas mais minimalista. Aqui, contam as vozes, a guitarra, o baixo e a bateria. Não há cá arranjinhos superiores para disfarçar impotências. Isto é música.


Grizzly Bear - "Veckatimest"



Um disco de excelentes canções, que tem em "While You Wait For The Others" o seu auge. Não ultrapassa "Bitte Orca" na medida em que os arranjos vocais, mesmo sendo muito bem conseguidos, constituem uma importância menor na música dos Grizzly Bear que na dos Dirty Projectors. Não obstante, revelam um trabalho melódico e harmónico, sob a aura do indie-rock, que nos deixa absolutamente pasmados. A música acima nomeada é uma das melhores do ano, sem dúvida. E "Veckatimest" não fica atrás.


The Antlers - "Hospice"



Pode parecer incrível como um disco descoberto há cerca de uma semana pode aparecer assim, sem mais nem menos, na minha lista dos 10 melhores do ano. Só que "Hospice" não é um simples disco. Provavelmente, se o tivesse encontrado mais cedo, até estaria para segundo ou mesmo primeiro. Mas preciso de tempo para o absorver e até agora só me deparei com coisas boas. Faz-me lembrar "Funeral", dos Arcade Fire, o que por si só é um elogio. Mas parece-me até que o ultrapassa, na medida em que é menos imediato, dá-nos mais trabalho. Será, talvez, uma obra-prima.


The Invisible - "The Invisible"



Um disco pop feito por músicos de jazz é sempre bem-vindo. Neste caso, o primeiro disco dos The Invisible é uma verdadeira pérola musical que acaba por marcar o ano de 2009 - nem sabem o que me arrependo de não os ter visto no Super Bock em Stock. É um daqueles exemplos em que a produção excepcional de um disco o pode fazer catapultar para um patamar superior. Ainda bem que tal aconteceu. Os "invisíveis" fazem boa música pop, sem estarem reféns de melodias imediatas e refrões cantáveis à primeira.


Fever Ray - "Fever Ray"



Como disse no Planeta Pop, este é um dos álbuns verdadeiramente originais de 2009. Sombrio até dizer chega, consegue ser envolvente, na medida em que a sua estranheza nos leva a querer descobri-lo. A voz alterada de Karin Dreijner Anderson é a sonoridade de marca de "Fever Ray". Se eu tivesse que aconselhar uma hora para ouvir o disco, seria certamente na madrugada, ou ao nascer do sol. Dava para fazer um belo filme, este autêntico exemplo de como a electrónica não está refém da dança ou da imediatez. Por vezes, é também necessário ser negro e sereno.


Julian Casablancas - "Phrazes For The Young"



Casablancas voltou, felizmente, para nos mostrar que os The Strokes não são a sua única praia. A vida não é só rock, mas também pop, country e até folk. Se o vocalista dos nova-iorquinos decidir dar-nos mais exemplos disso, creio que estaremos perante um autêntico camaleão, disposto a encarnar novas roupagens sempre que estiver com disposição e criatividade para isso. Embora só tenha 8 faixas (aposto que Casablancas fez isso para ter maior probabilidade de estar integrado neste tipo de listas, e aí lixou-me), o disco é bastante coeso e diversificado. Uma bela minhoca para esta primeira cavadela, ó Casablancas!


Junior Boys - "Begone Dull Care"



Electrónica. Sintetizadores - gosto tanto deles como tu, Astronauta, e se forem utilizados assim, melhor. Vozes sensuais. Ritmos simples. Música de gente grande, como diz o João aqui do blogue. Um disco incontornável, se quisermos que 2009 seja regado com boa pop. "Begone Dull Care é a banda sonora perfeita para um jantar a dois com vinho e lagosta ou para dançar no quarto enquanto nos vestimos de manhã para ir para o trabalho", dizia o João no post que escreveu acerca do disco. Concordo.


Franz Ferdinand - "Tonight"



Para mim os Franz Ferdinand terão sempre um lugarzinho guardado desde que se lançaram ao mundo em 2004. "Tonight" é só mais uma prova de que eles ainda estarão para as curvas durante alguns aninhos. Só que não é em disco que eu mais gosto dele. É ao vivo, enquanto entoo os refrões e tento acompanhar as guitarradas e os ritmos da bateria com o corpo. E agora também os sintetizadores, que eles tão bem integraram na sua sonoridade. Que continuem assim, pois 2009 também foi vosso!

fazer música à Arcade Fire é com os The Antlers


Como dizia Vítor Belanciano no primeiro Super Disco, não é sua ambição conhecer tudo, no que à música diz respeito. Mas há certas obras-primas que, quer queiramos ou não, nos escapam. No entanto, se quisermos ser um bocadinho mais felizes, há uma em particular que não podemos esquecer. "Hospice", o último disco dos The Antlers, banda de Brooklyn, é essa obra-prima que apareceu por acaso, graças a um pequeno post do Ípsilon no Facebook que citava o crítico de música Luís Maio. Depois, nem cheguei a ler o texto. Mas o senhor que estava ao balcão da Louie Louie, no Chiado, disse-me que o disco era bem bom. E eu concordo.

Os The Antlers têm mais dois álbuns, "Uprooted" e "In The Attic of the Universe", de 2006 e 2007, respectivamente. Não conheço os trabalhos em questão mas depois deste "Hospice", não demorarei muito tempo a desbravar a discografia do trio nova-iorquino liderado por Peter Silberman.

O álbum conta uma estória. Começa com "Prologue" e termina com "Epilogue". A primeira, mais abstracta e ruidosa, marca o início duma viagem que nos lembrará, ao chegarmos à décima e última faixa do disco, Arcade Fire e "The Funeral", autêntica compilação de hinos e canções que marcariam a história para sempre. Mas como a história é feita de estórias, "Hospice" é mais um desses contos que insiste em não se fazer esquecer. Atenção: estamos a falar dum trabalho absolutamente acústico, por vezes folk, outras mais a puxar para o indie rock à boa maneira arcadefireana. A voz de Silberman lembra-nos Win Butler, que lembra Bowie. Não sei se Bowie faz sentir saudades de alguém, porque só ele é assim.

Mas não nos percamos, o que também não era fácil.

Estamos num mundo feito à base de piano, cordas sinfónicas (também há secções de sopros metálicos - trompetes, trombones e trompas), reverberação, uma guitarra ligeiramente distorcida - quando não é acústica - e uma bateria recrutada para fazer o mesmo que nos Arcade Fire. Com estes ingredientes, o resultado é uma das obras-primas dos últimos anos e um dos melhores registos deste ano. Podem não ser singles como "Power Out" ou "Tunnels", mas despertam-nos provavelmente maior interesse.

Não é um disco imediato. Não porque seja difícil de ouvir - não é, de todo. Mas requer termos tempo para o consumir. Dispensar uma hora com "Hospice" será certamente um serão ganho.



domingo, 13 de dezembro de 2009

saudosos anos 2000 - the present and the future. yeah!

por André Breites (Who's Playing At My House)



Quando o velho companheiro de luta Simão me propôs fazer um texto sobre o Sound of Silver para os "Saudosos anos 2000" a minha primeira reacção foi franzir o sobrolho. Primeiro porque sei que o Simão também adora os LCD Soundsystem e depois porque é-me impossível falar de Sounds Of Silver sem ir mais atrás nesta década.

Em 2001 o americano James Murphy junta-se ao inglês Tim Goldsworthy para fundar a editora que viria a agitar as águas no que à música de dança mais underground diz respeito, a DFA Records. James Murphy - um tipo quase quarentão, de barriguinha proeminente e barba por fazer, que poderia ser nosso vizinho do lado, cheio de talento e de boas referências - soube-se rodear de gente de confiança formando uma espécie de família, com músicos a tocar em várias bandas da editora e criando um género de som que serviu de imagem de marca. Apostou em jovens com sangue na guelra como os The Rapture e fez as cowbells ecoarem pelas pistas de dança deste mundo. Neste processo convenceu por exemplo o velho amigo John a voltar à música depois
de este ter saído desiludido e afogado em drogas da sua antiga banda, onde Murphy era engenheiro de som. Hoje Jonh responde por Juan Maclean e é responsável por outro dos discos mais memoráveis destes anos 00.

Em 2002 James decide criar a sua própria banda e não faz as coisas por menos. O single de estreia do "Losing My Edge" torna-se um underground hit e os seguintes "Give It Up" e "Yeah" - que viria a ter várias versões, uma delas intitulada "stupid version"...- ajudam a por mais achas para a fogueira.

Estavam dados os primeiros passos...

Sound of Silver, de 2007, foi apenas a última grande peça do puzzle que ajudou a tornar tudo ainda mais claro: os LCD Soundsystem são a melhor banda da década (não estou a ser nada tendencioso, como podem ver) pela forma como ajudaram a consolidar e a consumar o cruzamento entre o rock e a música de dança nestes dez anos, pela forma como reciclam e citam influências de um passado mais ou menos recente - veja-se "Daft Punk Is Playing At My House" ou o desfilar de bandas na
letra de de "Losing My Edge" - e o transformam em algo personalizado e até inovador, pelo humor e ironia que conseguem ter mesmo nos momentos mais solenes, pelo apelo irresistível ao bater do pé ou a algo mais expansivo e por outras mil e umas razões.

Difícil é destacar Sounds Of silver em relação à estreia da banda com o disco homónimo de 2005 mas de facto Sounds Of Silver é um disco mais coeso. Não que seja melhor mas porque o LP de estreia, que até foi duplo, era mais uma compilação de singles que propriamente um álbum construido da cabeça aos pés. Sound Of Silver tem tudo, para todos os gostos. Da raiva controlada de "Us Vs. Them" à tocante e desencantada declaração de amor à sua mais que tudo Nova Iorque, passando pela acutilante "All My Friends" e pela envolvente "Someone Great", momentos inesquecíveis não faltam por aqui. Ouça-se "Watch The Tapes" e
perceba-se que nem quando os ritmos são mais primários e o viço punk vem à tona a qualidade baixa. Isto tudo sem esquecer os já característicos crescendos: "Get Innocuous!" abre o álbum de maneira arrepiante...

Aos arautos da desgraça que diziam que a DFA era uma editora da moda - e que ia morrer moribunda assim que esta "moda" passasse - lamento informar que esse dia ainda não chegou. Nem irá chegar, pelo menos por esses motivos. Porque aqui a música não se rege por modas, nem a DFA está confinada, como alguns gostam de fazer crer, ao disco-punk. A DFA está confinada sim, mas à boa música (apesar de algumas excepções que não me agradam mas que servem para confirmar a regra). E essa não é só disco-punk ou fandango, a boa música é universal e ultrapassa etiquetas.

Os LCD Soundsystem, apesar de não terem chegado novos às luzes da ribalta, são o presente e o futuro. Yeah!


[apesar de ter franzido o sobrolho inicialmente, acabo com um agradecimento ao Simão e ao João Francisco pela oportunidade que me deram de escrever sobre uma das minhas paixões neste magnífico cantinho da blogosfera. Brevemente voltaremos a ter novidades conjuntas!]

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

saudosos anos 2000 - don't believe the hype


hype - A clever marketing strategy which a product is advertized as the thing everyone must have, to the point where people begin to feel they need to consume it. To create interest in by flamboyant or dramatic methods; promote or publicize showily



Vivia-se o ano de 2005 e o mote acima transcrito servia como cartão de visita para a apresentação da banda mais falada do momento: Arctic Monkeys. 4 putos de Sheffield estavam a virar do avesso a cena musical britânica, e os circuitos musicais borbulhavam com as demos e as gravações quase trapalhonas destes miúdos, mas que contagiavam à primeira audição. As mesmas eram distribuídas gratuitamente nas actuações que realizavam, e o resto era feito pelos fãs. O "vírus" espalhava-se de uma forma rápida. Depois dos Arctic Monkeys, os sites de redes sociais, nomeadamente o MySpace, nunca mais foram os mesmos. Não terão sido com certeza os primeiros a saber aproveitar o potencial da Internet como meio de divulgação da sua música, mas foi com eles que o paradigma começou a mudar (curiosamente os próprios admitiram que a sua página de MySpace fora criada por fãs, e que eles nunca tiveram responsabilidade no fenómeno).

Ainda antes de "Whatever People Say I Am, That's What I'm Not" ser gravado, as músicas que iam estar no álbum já eram sucessos garantidos. Os fãs já sabiam as letras todas de cor, os concertos estavam cheios e o culto ameaçava crescer a um ritmo nunca antes visto. O primeiro single "I Bet You Look Good On The Dancefloor" descolou imediatamente para nº1 do top. Quando surgiram na capa do NME, em Janeiro de 2006, poucos dias antes do lançamento oficial do álbum de estreia, o hype rebentou. O resultado: bateram todos os recordes de vendas até à data, número 1 no top britânico durante semanas a fio, tudo isto culminado com o Mercury Prize entregue no mesmo ano.

Rapidamente acusados de serem levados ao colo pela imprensa e de serem sobrevalorizados, a verdade é que "Whatever People Say I Am, That's What I'm Not" pemaneceu imune às críticas negativas e falava por si. A energia presente no álbum é inegável. Somos imediatamente arrasados com o tema de abertura, e a partir daí a viagem só se torna (ainda) mais alucinante. Sem pormenores técnicos nem rasgos virtuosos, a música destes rapazes não tinha segundas intenções. O esquema, aliás, é surpreendentemente simples e eficaz: uma secção rítmica frenética, guitarras a 100 à hora, e uma voz carismática disparando letras de cariz social, sarcásticas e mordazes. Os Arctic Monkeys tornaram-se na voz da juventude britânica, e o mundo seguir-se-ia pouco tempo depois.
Alex Turner está longe de ser um líder polémico e mediático, e o sucesso meteórico nunca subiu à cabeça da banda. Desde cedo manifestaram uma paradoxal maturidade que contrastava com o público que os ouvia, com o próprio aspecto da banda (quantos músicos se gabam de receber um Mercury Prize com borbulhas na cara?), ou com a opinião da crítica e da sociedade sobre eles, fosse ela qual fosse, que assistia à sua conquista da cena musical.
Felizmente, eu nunca acreditei no "hype".


1. The View From The Afternoon
2. I Bet You Look Good On The Dancefloor
3. Fake Tales Of San Francisco
4. Dancing Shoes
5. You Probably Couldn't See For The Lights But You Were Looking Straight At Me
6. Still Take You Home
7. Riot Van
8. Red Light Indicates Doors Are Secure
9. Mardy Bum
10. Perhaps Vampires Is A Bit Strong But...
11. When The Sun Goes Down
12. From The Ritz To The Rubble
13. A Certain Romance

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

saudosos anos 2000 - once in a lifetime


Encontrava-me a descer aquela rampa incrivelmente íngreme em direcção à zona de campismo quando, por uma razão para a qual ainda não arranjei qualquer explicação, o meu olhar se desviou para perseguir um tipo baixo, de camisa vermelha e ténis brancos. De repente, senti o coração a bater mais rápido. Foquei o homem, e não hesitei: "Nick!", exclamei eu, sem medo de me enganar na pessoa. O homem olhou para mim, sorridente e disposto a trocar dois dedos de conversa. Exactamente. Na ressaca do concerto dos Franz Ferdinand em Paredes de Coura deste Verão, eis-me ali, privado de receio e vergonha, a dirigir-me a Nick McCarthy, guitarrista dos Fab Four de Glasgow.

Tremia que nem varas verdes. Lembro-me de ter os olhos humedecidos só de falar com aquele tipo, de lhe dizer mil vezes num inglês sem falhas (nunca me tinha acontecido) o quão o seu primeiro álbum tinha sido importante para mim. Que tinha sido por causa dele, McCarthy, e de Kapranos, que tinha aprendido a tocar guitarra. Devia-lhes quase tudo. Ao meu lado, a Raquel, por quem me apaixonei ao som de "Walk Away", canção que toquei vezes sem conta, do segundo disco, "You Could Have It So Much Better". Mas, se me dirigi ao guitarrista de origem germânica, foi por causa de "Franz Ferdinand", o disco que em 2004 arrecadou sem discussão o Mercury Prize. É uma obra peculiar. Não obstante o sucesso gigantesco de faixas como "Take Me Out", "Dark of The Matinee" ou "This Fire", qualquer das restantes 8 músicas do disco serviriam para dar inicialmente a cara aos Franz Ferdinand. Lembro-me, entre outras, de "Jacqueline", "Auf Achse", "Darts of Pleasure", "40'", "Tell Her Tonight", "Cheating On You", "Michael" ou até a gloriosa "Come On Home". Perdoem-me, acabei de indicar as restantes.

Este disco é para mim não só o melhor desta década como o melhor e mais importante de todos os tempos. Quando esta obra de pós-punk e dance rock alternativo foi lançada, apercebi-me que o que sempre tinha procurado na música eram aqueles riffs, dançáveis e complementares, o carisma de Alex Kapranos e os ritmos imprimidos por Paul Thompson na bateria - a minha grande frustração sempre foi não ter quatro braços, de forma a conseguir reproduzir o som dos Franz Ferdinand. Mas ao menos conseguia dançá-los. E foi assim que, em 2004, os vi no Sudoeste, naquele que foi considerado o concerto do ano. Dancei, vibrei, agarrei-me a pessoas que nunca cheguei a conhecer. Tudo pela alegria e energia que aqueles quatro transmitiam ao vivo. Eles não são músicos exímios. Nem sei se algum dia lá chegarão. Mas sabem o que fazem com as guitarras, com o baixo e com a bateria (e agora até já se lançaram aos sintetizadores). As primeiras parecem bebés siameses, com timbres convergentes e auxiliando-se mutuamente, à semelhança do que acontece com os The Strokes. Mas melhor. A diferença está também na bateria, que é por si só um riff. Paul Thompson é, de resto, um dos músicos que utiliza o instrumento da forma que mais me agrada. Funde-se com ele e juntos são um só - isto é-vos facilmente explicável por alguém que já o tenha visto ao vivo.

Concluindo, este "Franz Ferdinand", lançado pela Domino em 2004, tem para mim um valor extra-sentimental. Guess what. Não sei do disco.

1 - Jacqueline
2 - Tell Her Tonight
3 - Take Me Out
4 - The Dark Of The Matinée
5 - Auf Achse
6 - Cheating On You
7 - This Fire
8 - Darts Of Pleasure
9 - Michael
10 - Come On Home
11 - 40'


quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

"to me, it means «red-haired one» – and it does, vaguely"


Podíamos estar em plena apoteose de sintetizadores nos anos 80. Mas encontramo-nos em 2009. Elly Jackson e Ben Langmaid vêm de Inglaterra e parecem não se ralar muito com isso. Juntos, formam o projecto La Roux. A citação do título é de Jackson, a menina com um look que não é masculino nem feminino.

A música, essa, é bem feminina. Conta estórias de amores e desamores que geralmente encontramos em artistas MTV-pop. Mas os ingredientes são outros. O synthpop desta dupla, que ao vivo é um quarteto, rege-se por uma receita constante ao longo do álbum homónimo. Há que reconhecer que não se trata de uma obra-prima, este "La Roux". Mas também não é esse o objectivo - imagino eu. O resultado final é um disco repleto de canções de fácil penetração e entrenhamento auditivos, cozinhado à base de azeite e cebola. Isto traduz-se, em linguagem "synthpopiana", numa bateria digital cujo único objectivo é acompanhar os sintetizadores que devem lançar o mote, raramente representado uma mais-valia. Mas, repito, o objectivo não será esse, de acordo com a minha imaginação.

O disco resulta em algo despretensioso. Pouco ambicioso, mas que se come duma assentada só. Elly Jackson não é um rouxinol e muito menos uma escritora digna desse nome. Mas sabe para o que trabalha e é bem sucedida. Que mais poderíamos, então, pedir a estes La Roux?

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

saudosos anos 2000 - ao virar do milénio, um reabrir dos ouvidos


Estávamos em 2001. O meu pai entrou no carro e arremessou-me dois CD. Na altura, deve ter dito qualquer coisa do género: "mais tarde ainda hás-de dar muito valor a estes «disquinhos» que acabei de comprar". Tiro certeiro. Eis-me aqui, hoje, Dezembro de 2009, a falar de "Is This It" dos The Strokes. O outro era "White Blood Cells" dos White Stripes. Gaita, também me dará que falar.

Em 2001 o meu conhecimento musical, se é que há por aí uma definição do género, era ainda muito rudimentar - mesmo agora não me posso gabar de ter evoluído o suficiente. Ainda assim, se alguma coisa mudou desde então, agradecerei para todo o sempre aos The Strokes por me terem proporcionado esse abrir de ouvidos que hoje me permite discernir a música de outro modo. Vamos então à obra.

Se eu começar por dizer que "Is This It" é um conjunto de várias canções com personalidade própria, bem distinguidas entre si e em que o único ingrediente constante é a sonoridade (verão a seguir o que quer isto dizer), não estarei muito longe da verdade. Por outro lado, é um disco que relança o rock numa perspectiva mais indie, construído a partir da garagem e concebido para soar a rudimentar, mas que não tardou em ser alcançado pelos holofotes - nem podia ser doutra forma. Ah, a sonoridade.

Aquela bateria, que mais parece uma caixa de ritmos, mantém-se ao longo das 11 maravilhosas faixas que compõem o disco. Não há breaks apocalípticos mas isso também não seria desejável. Os The Strokes valem pela simplicidade. As guitarras, repartidas por Hammond Jr. e Nick, andam de mãos dadas - é essa uma das marcas do quinteto norte-americano. A competência dos dois permite-lhes trocar de posição entre guitarra-ritmo e solo. Quando não há esta diferença, e as duas guitarras oscilam entre harmonias quais cara-metade, tudo faz sentido. Sim, é também essa uma das grandes bandeiras do som dos Franz Ferdinand. O baixo, esse, é o penúltimo elemento a integrar este painel. Sem ele, os Strokes estariam reduzidos a cacos. No meio das brincadeiras dos registos mais agudos praticadas pelas guitarras, há sempre aquele elemento que nos ajuda a completar o puzzle sonoro, ajudando à resolução de cada acorde, cada nota.

Por último, aquela voz sempre abafada e distorcida de Julian Casablancas. The Man, poder-se-ia dizer. Já por mais que uma vez o João (aqui do W.Y.A.) referiu como lacuna o facto de os nova-iorquinos dispensarem segundas vozes. Pois eu acho que Casablancas chega para o serviço. O timbre e o carisma sempre trataram do assunto.

Simplicidade, uma vez mais, nas letras e na composição.

Resta-me, por fim, deixar aqui o alinhamento, destacando-se algumas faixas (*). Até podiam ser todas, mas há aquelas que insistem sempre em adiantar-se.

1- Is This It *
2- The Modern Age
3- Soma
4- Barely Legal *
5- Someday *
6- Alone, Together
7- Last Nite *
8- Hard To Explain *
9- New York City Cops *
10- Trying Your Luck
11- Take It Or Leave It



segunda-feira, 23 de novembro de 2009

este ano já posso morrer feliz, no próximo logo se verá


Sábado, dia 21 de Novembro, dirigi-me ao Loft, discoteca de Santos, para o evento d' O Baile. Fui lá, mais a minha Raquel, para ouvir os tão-ainda-pouco-elogiados-por-aqui Micachu and The Shapes.

Só faltou um som um pouquinho mais definido. À esquerda encontrava-se Raisa Khan, de lado para o público, com o seu sintetizador M-Audio, um prato (crash) virado ao contrário, um timbalão de chão e um jogo de percussões metálicas onde se vislumbravam uma garrafa de vinho do porto e outra de Licor Beirão.
Na ponta oposta, Marc Pell garantia o ritmo da coisa. Não faz linhas de bateria evidentes. Cumpre e não deixa a desejar. É isto que se quer.
Ao centro, Mica Levi, mais conhecida por Micachu. Tem no seu franzir-de-lábio um dos aspectos marcantes da sua forma feia-gira de cantar (e até falar).

Juntos, são os Micachu and The Shapes. E são um espectáculo.

O alinhamento foi o menos previsível possível. Do álbum, lembro-me de "Wrong", "Lips", "Golden Phone" e "Hardcore", entre outras. Faltaram "Worst Bastard" e "Calcullator". Tocaram pelo menos quatro músicas que não encontramos no álbum "Jewellery". Num concerto que durou pouco mais de 40 minutos, isto mostra bem que a banda não tem que lamber as botas a ninguém. É mais ao contrário.

Adoro ver alguém que sabe desafinar. É o caso de Mica. A sua formação clássica proporciona-lhe esse acrescento musical: na primeira música do alinhamento, em que os acordes voavam entre o Mi maior e menor, Mica fazia sempre a terceira que se pedia no outro acorde: para o maior, aplicava-lhe uma terceira menor e vice-versa. É assim, também, toda a música dos Micachu and The Shapes. As resoluções de acordes nem sempre param onde esperamos, mas isso constitui uma fatia importante da riqueza musical deste trio britânico. Eu achava que o trabalho que Herbert desenvolveu com eles ao nível do estúdio seria impossível de estampar ao vivo. Pois bem, adorei enganar-me, Sábado à noite. Salvo algumas excepções em que o sintetizador de Raisa se encontrava demasiado pujante, o certo é que as pequenas minudências da música dos Micachu and The Shapes são o seu segredo mais mal guardado. Estão lá para defender a sonoridade mais cativante deste ano.

Acabado o concerto, conheci a Mica Levi. Simpática dos pés à cabeça, a exibir o seu franzir-de-lábio como quem não sabe fazer outra coisa. Depois de em Paredes de Coura ter conhecido Nick McCarthy, guitarrista dos meus mais-que-tudo Franz Ferdinand, este ano já posso morrer feliz. A vida é feita destas pequenas-grandes coisas. Para o ano, logo se vê.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

eles já são grandinhos. o suficiente para andarem pelo seu próprio pé



Lembro-me que foi no Sudoeste de 2005. Na ressaca do concerto dos Oasis (chegar-tocar-adieu), a multidão dispersou-se pelo recinto do festival. Ficámos uns quantos a assistir àquele que seria um dos concertos desse festival. Os Kasabian, banda britânica geralmente referida como a sucessora dos Primal Scream, actuaram nessa noite e, ao contrário da opinião generalizada, mostraram que sabem fazer rock alternativo. Do realmente bom.

Nessa altura, contavam apenas com o recém-lançado "Kasabian" que chegou a Portugal em 2005. Repleto de boas canções com uma boa mistura de indie/rock e electrónica, os Kasabian acabaram por marcar um ano em que surgiram bandas como Kaiser Chiefs, Bloc Party e Arctic Monkeys. Depois de um segundo álbum razoável, destacando-se faixas como "Empire" e "Shoot The Runner", eis que os britânicos lançam, na primeira metade deste ano, "West Rider Pauper Lunatic Aslyum".

Quando foi lançado o single "Vlad The Impaler", no início de 2009, já se conseguia antever a sonoridade de todo o disco. As guitarras acústicas afirmam-se mais consistentemente do que até agora acontecera. No que toca à base rítmica, as coisas deixaram de ser lineares e oh-tão-perfeitinhas, humanizando a música dos britânicos. A nomeação para o Mercury Prize deste ano é também um reconhecimento do seu sucesso e de um passo à frente no que toca à comparação com os Primal Scream. Perdoem-me por não ter falado deles mais cedo, já que se trata dos autores de um dos álbuns mais cativantes deste ano já na recta final.

Os Kasabian andam pelo seu próprio pé e assim continuarão. Esperamos nós.

Mixtape #1


É a primeira vez que publico uma cena destas. Não tem nenhuma ordem ou critério específicos, embora isso não constitua regra - a ideia será avançar para mixtapes temáticas. Espero críticas, das mais destrutivas, para aprender com elas. Isto requer tempo, conhecimento mas, sobretudo, muita experiência e prática. Podem fazer o download ou simplesmente ouvir.



Intro - Personality Goe (Pulp Fiction Soundtrack)
Micachu and The Shapes - Golden Phone
Dirty Projectors - No Intention
Animal Collective - Summertime Cloths
The Invisible - London Girl
The Golden Filter - Thunderbird
Julian Casablancas - 11th Dimension
Kasabian - Where Did All The Love Go
Lilly Allen ft. Mick Jones - Straight To Hell
Fever Ray - If I Had a Heart
Massive Attack - Splitting The Atom

quando a pop é assim, para que precisamos do resto?


Nova Iorque viu nascer, em 2008, mais um projecto de electropop a dois que vai dar que falar. E eis-me aqui a sucumbir à genialidade e frescura dos The Golden Filter, Penelope e Stephen. Outrora Lismore, um projecto que iniciaram em 2004, passaram de vizinhos a parceiros de banda. Ela, australiana de gema e ele residente nova-iorquino nascido em Ohio.

O que sabemos deles é pouco ou nada. Mas o pouco que se conhece é o melhor esboço que se poderia pedir a uma banda que anda a viver de singles - embora se especule que um álbum possa sair no próximo ano. Anyway, conversas à parte, vamos ao que realmente interessa.

Em Julho do ano passado, lançaram o single "Solid Gold", que anda a ver se dá cabo das colunas cá de casa. A voz "açucarada" (é o meu pai que diz) de Penelope, associada a uma batida constante e marcante, suportada por linhas de sintetizadores relativamente simples, é uma espécie de cocktail que poucos deixará com sede. Se assim o for, é com sede de mais, em termos quantitativos. Isto é como quem diz: foram buscar as vozes às deliciosas Au Revoir Simone, a batida aos The Gossip e os sintetizadores a algo como Hot Chip.

Já esta semana, a 16 de Novembro, foi lançado o single "Thunderbird" (Dummy Records), mais um contagiante tema deste duo que ao vivo conta com a contribuição de Lisa na bateria. O registo é em tudo semelhante ao de "Solid Gold" por isso, há que alertar, não se trata de uma sonoridade muito diversificada. Os ingredientes desta maravilhosa refeição são simples: uma ou duas linhas de sintetizadores (em geral o mais grave actua na forma de arpejo), uma bateria pouco ou nada virtuosa à base de bombo e tarola (e pratos, claro está).

E, por último, a voz quase soprada de Penelope, a australiana que viajou para o novo continente para tornar o mundo num lugar mais feliz. Gaita, parece que está mesmo a conseguir.


segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Por que demoraram tanto a torná-los visíveis?


Estes fulanos deviam dispensar apresentações. Mas a vida nem sempre é justa. O facto é que os The Invisible são uma banda londrina que lançou o seu álbum homónimo em Março deste ano e pouco ou nada se ouviu falar desta malta de origem "jazziana" - o meu agradecimento óbvio vai para o Breites, que falou deles aqui. Foram nomeados para o Mercury Prize e estarão cá no Super Bock em Stock, dia 5 de Dezembro na sala principal do São Jorge.

São eles Dave Okumu, Tom Herbert e Leo Taylor. Guitarrista/vocalista, baixista e baterista, respectivamente. Felizmente, receberam a benção de Matthew Herbert e a sua editora Accidental Records, que já este ano levou Micachu ao patamar mais elevado das sonoridades actuais. O trio, existente desde 2006, levou o ano passado a abrir para bandas como Foals e Hot Chip, bem como a divulgar os singles "Monster's Waltz" e "London Girl", ambos presentes em "The Invisible". A segunda faixa é, de resto, das mais cativantes deste ano, criada a partir de uma linha de baixo que se cola aos ouvidos qual sanguessuga.

A voz de Okumu aproxima-se do registo dos Junior Boys, em Begone Dull Care - quase um murmúrio, pura sensualidade através dos sussurros que marcam o álbum. As linhas de guitarra pouco ou nada têm de extraordinário, a não ser o sentido de oportunidade e a pertinência com que são aplicadas. Afinal de contas, mais não se poderia pedir, a não ser que Okumu se tratasse de um polvo polivalente.

Mas há algo que é determinante nesta sonoridade dos The Invisible. Desprovida de uma produção absolutamente formidável, esta música aproximar-se-ia facilmente da banalidade, ou pelo menos do rótulo de "é mais uma como". O que faz toda a diferença. À semelhança de "Jewellery", dos Micachu And The Shapes (perdoem-me falar tanto neles, mas os casos estão intimamente ligados), "The Invisible" é o que é mais graças à produção do que à música em si. A distância duma para a outra, mesmo assim (e é por isso que falamos deles), não é abismal. É pop. É indie. É dançável, deparamo-nos facilmente com o bater do pé. E por isso os louros não vão todos para Herbert. Nem ele precisava.


sábado, 14 de novembro de 2009

Há vida para lá do universo "strokeseano"


As bandas nunca acabam realmente. Isto é o que eu penso. As pessoas separam-se mas a música que fizeram juntas fica lá sempre. Veja-se o caso dos Pink Floyd. Whatever. Isto é conversa. No caso dos The Strokes, a banda não anunciou o fim. Mas há músicos a querer vida além-grupo. Depois de Albert Hammond Jr. e Fabrizio Moretti - em Little Joy -, é a vez de Julian Casablancas, o frontman da coisa, se lançar a solo.

Boa decisão, esta. Levou consigo os ensinamentos de três álbuns que construiu ao longo de mais de cinco anos de carreira com a banda, mas soube inovar nalguns aspectos.
Em "Phrazes For The Young", uma autêntica experiência de pop, rock, country e blues, Casablancas não esquece as guitarras. Mas introduz os sintetizadores - parecia inevitável, no tempo em que vivemos -, os bandolins e ritmos que nos fazem querer andar a agitar maracas pela rua fora. Há uma faixa que me lembra The Pogues - Ludlow St., a quinta do disco, a partir dos 3.40min - e não estou a brincar. Sim, o disco é tão bom que até a isso nos soa.

São oito canções que mostram que há vida para lá dos fantásticos The Strokes, numa demonstração de criatividade e frescura que serve de exemplo e marcará certamente este já quase acabado 2009. A voz, essa será sempre de Casablancas, o filho de um empresário milionário que recusou a fortuna garantida para fazer aquilo que gosta. E nós estar-lhe-emos para sempre agradecidos, não é assim?


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Jerry Fuchs (1975 - 2009)


Jerry Fuchs, de 34 anos, era baterista de uma das mais enérgicas bandas que já vi ao vivo, os !!! (Chk Chk Chk). Morreu tragicamente, em Brooklyn, na noite passada. Encontrava-se numa festa de angariação de fundos. Esta é a melhor forma de o lembrarmos: