segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Por que demoraram tanto a torná-los visíveis?


Estes fulanos deviam dispensar apresentações. Mas a vida nem sempre é justa. O facto é que os The Invisible são uma banda londrina que lançou o seu álbum homónimo em Março deste ano e pouco ou nada se ouviu falar desta malta de origem "jazziana" - o meu agradecimento óbvio vai para o Breites, que falou deles aqui. Foram nomeados para o Mercury Prize e estarão cá no Super Bock em Stock, dia 5 de Dezembro na sala principal do São Jorge.

São eles Dave Okumu, Tom Herbert e Leo Taylor. Guitarrista/vocalista, baixista e baterista, respectivamente. Felizmente, receberam a benção de Matthew Herbert e a sua editora Accidental Records, que já este ano levou Micachu ao patamar mais elevado das sonoridades actuais. O trio, existente desde 2006, levou o ano passado a abrir para bandas como Foals e Hot Chip, bem como a divulgar os singles "Monster's Waltz" e "London Girl", ambos presentes em "The Invisible". A segunda faixa é, de resto, das mais cativantes deste ano, criada a partir de uma linha de baixo que se cola aos ouvidos qual sanguessuga.

A voz de Okumu aproxima-se do registo dos Junior Boys, em Begone Dull Care - quase um murmúrio, pura sensualidade através dos sussurros que marcam o álbum. As linhas de guitarra pouco ou nada têm de extraordinário, a não ser o sentido de oportunidade e a pertinência com que são aplicadas. Afinal de contas, mais não se poderia pedir, a não ser que Okumu se tratasse de um polvo polivalente.

Mas há algo que é determinante nesta sonoridade dos The Invisible. Desprovida de uma produção absolutamente formidável, esta música aproximar-se-ia facilmente da banalidade, ou pelo menos do rótulo de "é mais uma como". O que faz toda a diferença. À semelhança de "Jewellery", dos Micachu And The Shapes (perdoem-me falar tanto neles, mas os casos estão intimamente ligados), "The Invisible" é o que é mais graças à produção do que à música em si. A distância duma para a outra, mesmo assim (e é por isso que falamos deles), não é abismal. É pop. É indie. É dançável, deparamo-nos facilmente com o bater do pé. E por isso os louros não vão todos para Herbert. Nem ele precisava.


sábado, 14 de novembro de 2009

Há vida para lá do universo "strokeseano"


As bandas nunca acabam realmente. Isto é o que eu penso. As pessoas separam-se mas a música que fizeram juntas fica lá sempre. Veja-se o caso dos Pink Floyd. Whatever. Isto é conversa. No caso dos The Strokes, a banda não anunciou o fim. Mas há músicos a querer vida além-grupo. Depois de Albert Hammond Jr. e Fabrizio Moretti - em Little Joy -, é a vez de Julian Casablancas, o frontman da coisa, se lançar a solo.

Boa decisão, esta. Levou consigo os ensinamentos de três álbuns que construiu ao longo de mais de cinco anos de carreira com a banda, mas soube inovar nalguns aspectos.
Em "Phrazes For The Young", uma autêntica experiência de pop, rock, country e blues, Casablancas não esquece as guitarras. Mas introduz os sintetizadores - parecia inevitável, no tempo em que vivemos -, os bandolins e ritmos que nos fazem querer andar a agitar maracas pela rua fora. Há uma faixa que me lembra The Pogues - Ludlow St., a quinta do disco, a partir dos 3.40min - e não estou a brincar. Sim, o disco é tão bom que até a isso nos soa.

São oito canções que mostram que há vida para lá dos fantásticos The Strokes, numa demonstração de criatividade e frescura que serve de exemplo e marcará certamente este já quase acabado 2009. A voz, essa será sempre de Casablancas, o filho de um empresário milionário que recusou a fortuna garantida para fazer aquilo que gosta. E nós estar-lhe-emos para sempre agradecidos, não é assim?


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Jerry Fuchs (1975 - 2009)


Jerry Fuchs, de 34 anos, era baterista de uma das mais enérgicas bandas que já vi ao vivo, os !!! (Chk Chk Chk). Morreu tragicamente, em Brooklyn, na noite passada. Encontrava-se numa festa de angariação de fundos. Esta é a melhor forma de o lembrarmos:


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Back to blogging life with Dirty Projectors

Depois de 3 meses que irão marcar o resto da minha vida, eis-me novamente na blogosfera.



Decidi, portanto, assinalar este regresso com a referência a uns tipos que a merecem. Isto porque não só têm um dos registos mais marcantes deste ano que já vai chegando ao fim, como se destacarão, chegadas as horas de fazer contas, nos primeiros lugares das já habituais listas. Se me ilustram como autêntico cromo dos "tops", então terão que ver, em primeiro lugar, "Alta Fidelidade", com John Cusack e Jack Black, entre outros. Para depois pensarem duas vezes. Mas não nos distanciemos do que importa de facto aqui.

A primeira coisa que me chegou aos ouvidos destes norte-americanos - de Brooklyn, claro está (boa opinião do Breites sobre isso aqui) -, foi no primeiro Super Disco, no Teatro Maria Matos. Vítor Belanciano, do Público, foi falar sobre "Remain In Light" dos Talking Heads, mas começou por pôr uma faixa do disco "Bitte Orca". Não me lembro qual, mas pela semelhança de sensações que me despertou mais tarde, creio que terá sido "Stillness Is The Move".
A segunda vez foi no Late Night com o Jimmy Fallon, em que apresentaram uma música acabadinha de fazer. Achei corajoso, e a Pitchfork também não desdenhou.

Ora num registo de guitarra quase acústica - totalmente clean, por vezes reverberada ou com trémolo - para depois enveredar numa distorção por vezes incalculada, este álbum baseia-se no que muitas bandas têm vindo a tomar como rumo: querem fazer música diferente, distanciando-se progressivamente da norma e dos cânones, mesmo que para isso a condição seja uma sonoridade mais difícil de engolir. Aconteceu com os Micachu, mas não acontece com estes maravilhosos Dirty Projectors. As vocalizações, à margem da voz de cana rachada que deixa Ezra Koenig (dos Vampire Weekend) encostado às boxes, são de uma limpidez e consciência de harmonia que pouco ou nada tenho ouvido.

E esse é o grande trunfo dos nova-iorquinos. Batem-se pela voz, quando na guitarra, bateria e baixo já pouco há a fazer (este último instrumento apresenta-se com uma limpidez que faz inveja). Não foi difícil, por isso, permitir que os Dirty Projectors entrassem pela porta da glória que, todos os anos, catapulta aquelas fornadas de bandas para um reino onde o esquecimento não entra. Nem o efémero. Estes não o serão, certamente.


quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Vive La Resistance




O muito aguardado The Resistance, 5º album de estúdio dos Muse, já foi alvo de intensa audição e revisão aqui por estes lados.

Seguindo a linha já timidamente explorada no registo anterior (Black Holes and Revelations), os Muse não tiveram medo de alargar horizontes, não se prendendo às fórmulas de sucesso que os elevaram a um patamar de adoração no circuito do rock alternativo no passado. Pela primeira vez sem uma voz externa a comandar o barco, os Muse tomaram as rédeas da produção deste álbum, e o resultado é um disco que não tem medo de assumir a sua loucura e aparente falta de vergonha.

Intensamente orquestrado e clássico, é ao mesmo tempo notória a forte influência electrónica, e os "riffs" pesados e electrizantes também cá estão. A voz de Bellamy soa melhor que nunca, o baixo de Wolstenwholme é (ainda mais) criativo e imponente, e Dominic Howard continua a ser o motor incansável e invisível que está na base da versatilidade dos Muse.
Uprising é um híbrido entre Goldfrapp e Marylin Manson; Undisclosed Desires encontra os Muse a explorar a pop e o R&B, e o resultado é um ambiente "depeche modeano", com um dos refrões mais marcantes do disco; United States Of Eurasia é um tributo kitsch aos Queen, com versos que fazem lembrar a Butterflies & Hurricanes; Unnatural Selection e MK Ultra são um delírio de rock temperado com sintetizadores, das músicas mais pesadas a serem editadas pelos Muse, bem ao estilo dos tempos de Origin of Symmetry; I Belong to You, por outro lado, é uma das surpresas mais deliciosas deste álbum, e remete mais para o estilo de Showbiz, mas na altura os homens nunca se lembrariam de incluir um solo de clarinete numa das suas músicas; para o final fica a muito esperada sinfonia, onde Bellamy dá largas ao seu virtuosismo ao piano, e um ambiente etéreo é a banda sonora "John Williams-like" para um futuro hipotético, em que a Humanidade tem de sair da Terra e procurar um novo planeta para sobreviver.

Seria difícil pensar que o trio britânico poderia ir ainda mais longe e alargar os seus limites musicais, especialmente após os concertos de consagração que esgotaram 2 estádios de Wembley no verão de 2007. Mas quem está habituado às extravagâncias de Matthew Bellamy e companhia, às letras que falam de conspirações, alucinações, apocalipse, à música que poderia ser a banda sonora de uma trip de cogumelos mágicos ou de um épico filme de batalhas espaciais, certamente não esperava nada menos do que um novo conjunto de canções ridiculamente pretensiosas, arrebatadoras, épicas, despidas de qualquer tipo de bom senso e exploradoras de novos trilhos sonoros. The Resistance, nesse aspecto, não desilude nem um bocadinho.

É uma viagem mirabolante por um universo recheado de cores e emoções, sons e estilos diferentes. É um álbum, extravagante, excêntrico, arrojado, recheado de "guilty pleasures" e de músicas que têm tudo para se tornar grandes clássicos da carreira do trio britânico. A capa de The Resistance resume tudo: estamos perante um caleidoscópio musical arrebatador que nenhuma outra banda do panorama musical actual teria o descaramento de fazer. Felizmente estes rapazes não têm vergonha nenhuma na cara.


1. Uprising
2. Resistance
3. Undisclosed Desires
4. United States Of Eurasia (+ Collateral Damage)
5. Guiding Light
6. Unnatural Selection
7. MK Ultra
8. I Belong To You (+ Mon Coeur S'ouvre A Ta Voix)
9. Exogenesis Pt. I - Overture
10. Exogenesis Pt. II - Cross-Pollination
11. Exogenesis Pt. III - Redemption