terça-feira, 1 de dezembro de 2009

saudosos anos 2000 - ao virar do milénio, um reabrir dos ouvidos


Estávamos em 2001. O meu pai entrou no carro e arremessou-me dois CD. Na altura, deve ter dito qualquer coisa do género: "mais tarde ainda hás-de dar muito valor a estes «disquinhos» que acabei de comprar". Tiro certeiro. Eis-me aqui, hoje, Dezembro de 2009, a falar de "Is This It" dos The Strokes. O outro era "White Blood Cells" dos White Stripes. Gaita, também me dará que falar.

Em 2001 o meu conhecimento musical, se é que há por aí uma definição do género, era ainda muito rudimentar - mesmo agora não me posso gabar de ter evoluído o suficiente. Ainda assim, se alguma coisa mudou desde então, agradecerei para todo o sempre aos The Strokes por me terem proporcionado esse abrir de ouvidos que hoje me permite discernir a música de outro modo. Vamos então à obra.

Se eu começar por dizer que "Is This It" é um conjunto de várias canções com personalidade própria, bem distinguidas entre si e em que o único ingrediente constante é a sonoridade (verão a seguir o que quer isto dizer), não estarei muito longe da verdade. Por outro lado, é um disco que relança o rock numa perspectiva mais indie, construído a partir da garagem e concebido para soar a rudimentar, mas que não tardou em ser alcançado pelos holofotes - nem podia ser doutra forma. Ah, a sonoridade.

Aquela bateria, que mais parece uma caixa de ritmos, mantém-se ao longo das 11 maravilhosas faixas que compõem o disco. Não há breaks apocalípticos mas isso também não seria desejável. Os The Strokes valem pela simplicidade. As guitarras, repartidas por Hammond Jr. e Nick, andam de mãos dadas - é essa uma das marcas do quinteto norte-americano. A competência dos dois permite-lhes trocar de posição entre guitarra-ritmo e solo. Quando não há esta diferença, e as duas guitarras oscilam entre harmonias quais cara-metade, tudo faz sentido. Sim, é também essa uma das grandes bandeiras do som dos Franz Ferdinand. O baixo, esse, é o penúltimo elemento a integrar este painel. Sem ele, os Strokes estariam reduzidos a cacos. No meio das brincadeiras dos registos mais agudos praticadas pelas guitarras, há sempre aquele elemento que nos ajuda a completar o puzzle sonoro, ajudando à resolução de cada acorde, cada nota.

Por último, aquela voz sempre abafada e distorcida de Julian Casablancas. The Man, poder-se-ia dizer. Já por mais que uma vez o João (aqui do W.Y.A.) referiu como lacuna o facto de os nova-iorquinos dispensarem segundas vozes. Pois eu acho que Casablancas chega para o serviço. O timbre e o carisma sempre trataram do assunto.

Simplicidade, uma vez mais, nas letras e na composição.

Resta-me, por fim, deixar aqui o alinhamento, destacando-se algumas faixas (*). Até podiam ser todas, mas há aquelas que insistem sempre em adiantar-se.

1- Is This It *
2- The Modern Age
3- Soma
4- Barely Legal *
5- Someday *
6- Alone, Together
7- Last Nite *
8- Hard To Explain *
9- New York City Cops *
10- Trying Your Luck
11- Take It Or Leave It



segunda-feira, 23 de novembro de 2009

este ano já posso morrer feliz, no próximo logo se verá


Sábado, dia 21 de Novembro, dirigi-me ao Loft, discoteca de Santos, para o evento d' O Baile. Fui lá, mais a minha Raquel, para ouvir os tão-ainda-pouco-elogiados-por-aqui Micachu and The Shapes.

Só faltou um som um pouquinho mais definido. À esquerda encontrava-se Raisa Khan, de lado para o público, com o seu sintetizador M-Audio, um prato (crash) virado ao contrário, um timbalão de chão e um jogo de percussões metálicas onde se vislumbravam uma garrafa de vinho do porto e outra de Licor Beirão.
Na ponta oposta, Marc Pell garantia o ritmo da coisa. Não faz linhas de bateria evidentes. Cumpre e não deixa a desejar. É isto que se quer.
Ao centro, Mica Levi, mais conhecida por Micachu. Tem no seu franzir-de-lábio um dos aspectos marcantes da sua forma feia-gira de cantar (e até falar).

Juntos, são os Micachu and The Shapes. E são um espectáculo.

O alinhamento foi o menos previsível possível. Do álbum, lembro-me de "Wrong", "Lips", "Golden Phone" e "Hardcore", entre outras. Faltaram "Worst Bastard" e "Calcullator". Tocaram pelo menos quatro músicas que não encontramos no álbum "Jewellery". Num concerto que durou pouco mais de 40 minutos, isto mostra bem que a banda não tem que lamber as botas a ninguém. É mais ao contrário.

Adoro ver alguém que sabe desafinar. É o caso de Mica. A sua formação clássica proporciona-lhe esse acrescento musical: na primeira música do alinhamento, em que os acordes voavam entre o Mi maior e menor, Mica fazia sempre a terceira que se pedia no outro acorde: para o maior, aplicava-lhe uma terceira menor e vice-versa. É assim, também, toda a música dos Micachu and The Shapes. As resoluções de acordes nem sempre param onde esperamos, mas isso constitui uma fatia importante da riqueza musical deste trio britânico. Eu achava que o trabalho que Herbert desenvolveu com eles ao nível do estúdio seria impossível de estampar ao vivo. Pois bem, adorei enganar-me, Sábado à noite. Salvo algumas excepções em que o sintetizador de Raisa se encontrava demasiado pujante, o certo é que as pequenas minudências da música dos Micachu and The Shapes são o seu segredo mais mal guardado. Estão lá para defender a sonoridade mais cativante deste ano.

Acabado o concerto, conheci a Mica Levi. Simpática dos pés à cabeça, a exibir o seu franzir-de-lábio como quem não sabe fazer outra coisa. Depois de em Paredes de Coura ter conhecido Nick McCarthy, guitarrista dos meus mais-que-tudo Franz Ferdinand, este ano já posso morrer feliz. A vida é feita destas pequenas-grandes coisas. Para o ano, logo se vê.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

eles já são grandinhos. o suficiente para andarem pelo seu próprio pé



Lembro-me que foi no Sudoeste de 2005. Na ressaca do concerto dos Oasis (chegar-tocar-adieu), a multidão dispersou-se pelo recinto do festival. Ficámos uns quantos a assistir àquele que seria um dos concertos desse festival. Os Kasabian, banda britânica geralmente referida como a sucessora dos Primal Scream, actuaram nessa noite e, ao contrário da opinião generalizada, mostraram que sabem fazer rock alternativo. Do realmente bom.

Nessa altura, contavam apenas com o recém-lançado "Kasabian" que chegou a Portugal em 2005. Repleto de boas canções com uma boa mistura de indie/rock e electrónica, os Kasabian acabaram por marcar um ano em que surgiram bandas como Kaiser Chiefs, Bloc Party e Arctic Monkeys. Depois de um segundo álbum razoável, destacando-se faixas como "Empire" e "Shoot The Runner", eis que os britânicos lançam, na primeira metade deste ano, "West Rider Pauper Lunatic Aslyum".

Quando foi lançado o single "Vlad The Impaler", no início de 2009, já se conseguia antever a sonoridade de todo o disco. As guitarras acústicas afirmam-se mais consistentemente do que até agora acontecera. No que toca à base rítmica, as coisas deixaram de ser lineares e oh-tão-perfeitinhas, humanizando a música dos britânicos. A nomeação para o Mercury Prize deste ano é também um reconhecimento do seu sucesso e de um passo à frente no que toca à comparação com os Primal Scream. Perdoem-me por não ter falado deles mais cedo, já que se trata dos autores de um dos álbuns mais cativantes deste ano já na recta final.

Os Kasabian andam pelo seu próprio pé e assim continuarão. Esperamos nós.

Mixtape #1


É a primeira vez que publico uma cena destas. Não tem nenhuma ordem ou critério específicos, embora isso não constitua regra - a ideia será avançar para mixtapes temáticas. Espero críticas, das mais destrutivas, para aprender com elas. Isto requer tempo, conhecimento mas, sobretudo, muita experiência e prática. Podem fazer o download ou simplesmente ouvir.



Intro - Personality Goe (Pulp Fiction Soundtrack)
Micachu and The Shapes - Golden Phone
Dirty Projectors - No Intention
Animal Collective - Summertime Cloths
The Invisible - London Girl
The Golden Filter - Thunderbird
Julian Casablancas - 11th Dimension
Kasabian - Where Did All The Love Go
Lilly Allen ft. Mick Jones - Straight To Hell
Fever Ray - If I Had a Heart
Massive Attack - Splitting The Atom